terça-feira, 23 de agosto de 2011

Sólidas solidões

Não sinto mais falta do ar puro, da água abundante que saciava minha sede nas planícies de Adan, nem mesmo do calor que trazia felicidade aos meus pequenos moions; agora, perto do fim, só consigo pensar em meu amado Anok, abandonado, solitário na distante Lanuria 268.

Eu sempre soube que jamais sairia de Libra, é o berço da nossa espécie, a fonte de toda a vida espalhada pela galáxia, mas nunca imaginei que viveria tempo o suficiente para ver o fim da humanidade, o fim de Adan e de todas as coisas boas que nasceram aqui.

Quantas unidades ainda restam espalhadas em nossa constelação, ou em Orion, ou até mesmo na longínqua Messier, além de Andrômeda? Quantas Allearas resistiram ao impacto da última onda? Hoje ejetei o último cadáver, os corredores estão vazios, diversos compartimentos isolados, desativados... Uma Alleara tumba, é o que tenho aqui, uma tumba inteirinha para mim!

O tempo está esgotando tão depressa... Talvez eu tenha autonomia para mais um ciclo, ou, quem sabe, conseguindo poupar oxigênio, mais quatro ou cinco frações além. Este tempo seria suficiente para algum resgate? Será que ainda tem alguém vivo em Adan, ou em toda Libra? Impossível! Ninguém teria sobrevivido ao que veio... Sei que estou aqui devido a um acaso cruel, apenas para sofrer e testemunhar a aniquilação da raça humana.

Sei que vou morrer longe do meu Anok...

Alleara 16 para Canubiantu...
Alleara 16 para Canubiantu...
Código Z-0X – Resgate imediato.
Ação Zero.
Código Z-0X – Resgate imediato!

O que estou fazendo... Preciso poupar energia para o processador de oxigênio... Não posso mais ficar pedindo socorro a cada fração; já não sei mais o que decidir, estou tão sozinha... Meu bebê está tão sozinho... Minha Shauna...

Alleara 16 para...
Código H-2A - Mensagem não oficial...
Para Anok, o amor do meu coração; alguém faça chegar a ele...
Trago no ventre o fruto do nosso amor, venha nos buscar...
Alguém, por favor, venha salvar minha filha!

Libra – Ciclo 3.2507
Órbita de Adan
Alleara 16

domingo, 14 de agosto de 2011

Dia um

Jamais entenderei os motivos que levaram nossa espécie ao declínio; jamais entenderei como fomos capazes de nos matarmos uns aos outros...

Eu olho para todos eles e vejo que continuam em suas miseráveis buscas por coisa alguma; acreditam possuir sabedoria suficiente para lidar com a própria existência, como se esta fosse nada mais que a simplicidade do ir e vir, sem compromisso sincero com seus semelhantes, somente sustentando a incansável vontade, ora dissimulada, ora voraz, de evidenciarem a si mesmos.

Criam sempre os mesmos sistemas e controles falhos para viver em sociedade, mas são limitados e jamais serão capazes de romper os ciclos; não há esperança, afinal de contas, a falha não está no que conseguem fazer, está na herança do que fomos e no legado que deixaríamos, se realmente ainda fosse possível, para as gerações vindouras.

Agora já resta tão pouco do que fizemos, do que fizeram, quase nada... Cada vez que olho lá para baixo aumenta a certeza de que todo o esforço foi em vão; os sacrifícios foram todos em vão; apenas vidas trocadas por nada.

Estou com medo...

Sinto o enorme vazio devorando minha alma, sinto o pavor da solidão crescente e impactante minando cada vez mais a minha vontade de reagir, enquanto aguardo com profunda tristeza o inevitável fim, porque é disso que se trata, não é? Chegamos ao ponto final e já não há qualquer esperança de salvação. Eles não voltarão mais, não podem voltar, estão presos à sua pobre miséria.

Hoje é o primeiro dia de uma nova era, já começaram seu novo e ambicioso projeto, estão desesperados e acreditam que serão capazes de salvar a espécie mais uma vez. Mas, eu fico me perguntando, será que lá no fundo de seus corações, não estão fazendo isso apenas para salvarem a si mesmos?

São egoístas por natureza, salvam-se poucos, e a construção dos arcolades não marcará uma nova era de verdade, apenas sintetizará o que sempre fizemos ao longo da existência de nossa espécie: pouquíssimos sendo favorecidos pelo sacrifício de milhares.

Anok
Orion – Ciclo 3.2507
Órbita de Lanuria 268
Ustrafus II